Que é isto, conhecer?

February 23, 2015

Para que aconteça o que entendemos por conhecimento, geralmente assume-se a posição de que tenham que existir alguém que conhece e algo que é conhecido. Uma cisão defendida à unhas e dentes como constituinte do credo gnosiológico da modernidade europeia. Contudo, sendo mais específico, preciso incluir que o “alguém que conhece” precisa de “algo”, que é apartado  pela crítica moderna em dois atributos: esse alguém precisa não saber para poder saber. O segundo, ou seja, a capacidade ou o poder de conhecer, foi excessivamente detalhada e exposta. Kant e sua obsessão pelo “a priori” que o diga. Já o primeiro, tenho a impressão de que foi esquecido. Foi destacado por negatividade; não é, logo, não interessa e não deve ser (pergunto-me que realiza esta inferência, senão o ego). Como diria Parmênides, saia do caminho do que não-é. Só interessa investigar “o” conhecimento. Esqueceu-se, com isso, que a condição mais fundamental para haver conhecimento é haver não-conhecimento, ou seja, ignorância. Séculos e séculos tenta(ra)m sair dessa armadilha de dualidades decorrentes do duelo entre o “sujeito” e o “objeto".

 

A antiquíssima querela do movimento-repouso é uma das primeiras demonstrações dos limites do intelecto racional. Podemos dizer, a partir do parágrafo anterior, que a modernidade só entende o movimento para o conhecimento, ou, a atividade de conhecer. Isto implica, e isto já foi amplamente apontado por algumas críticas,  em colocar o ego cogito como fundamento do conhecimento, como sua causa. A negação do não-saber implica em afirmar para o ego o status de “aquele que sabe” – não por acaso, a megalomania ocidental chega ao ponto de afirmar que enquanto espécie, somos aquele que sabe que sabe (sapiens sapiens). Quantas dualidades!

 

O caminho do autoconhecimento sugere o contrário. Sugere que a verdadeira investigação do conhecimento é observar aquilo que lhe é mais próximo, i.e., a si mesmo. Ironicamente, o próprio método cartesiano prescreve que partamos do que é mais simples, mais próximo, para o que é mais complexo, mais afastado. O que nos é mais próximo é a nossa própria ignorância. Investigando o não-conhecimento desvelamos um caminho, não apenas em fórmulas teóricas mas transformando-nos, realizando o processo da existência. Infelizmente, muitas mentes estão fechadas para a compreensão do movimento de suas próprias existências. Observar o movimento que nunca para, isto é, o ruído em nossas cabeças, nos ajuda a contemplar, ou, a conhecer a inatividade (repouso). A ignorância é a própria possibilidade do conhecimento, é preciso compreender profundamente essa tese, para que a correlação entre humildade e sabedoria possa ser vista. A verdadeira sabedoria brota deste esclarecimento: reconhecer a própria ignorância e observar a realidade de forma cada vez mais concentrada, mais focada, produz a superação da ignorância. Toda vez que “eu sei” algo, não há experiência. “Eu sei” significa duplicar uma informação que fora recebida, através da memória. Tudo que eu sei é passado. Quando deixo de investigar atentamente todo o processo, aceito as minhas lembranças e simplificações como representações da realidade corrente. E aí começam os problemas sérios, como vocês podem intuir a partir daqui.  

 

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