A raiz de todo o mal

May 26, 2015

Querer o bem com demais força e de incerto jeito, pode já estar sendo se querendo o mal por principiar. Esses homens! Todos puxavam o mundo para si, para concertar consertando. Mas cada um só vê e entende as coisas dum seu modo.

João Guimarães Rosa

 

Como? A raiz do mal é o bem? Como lidar com esse paradoxo? Mais especificamente, a raiz do mal é acreditar que somos nós os responsáveis pela criação/produção “do” bem. Temos ótimas ideias, impulsos genuinamente humanos, desejos de que o mundo seja melhor e bla bla bla. E isso é ótimo. Os problemas começam quando começamos a acreditar que somos capazes, como super heróis titânicos, de “mudar o mundo”. Transformar, revolucionar. Nós, “os bons”, sabemos o que é melhor para o mundo. Eles, “os ruins”, não sabem. E ainda nos atrapalham, nos perseguem. Qual conclusão se impõe? Temos que combatê-los e, se possível, eliminá-los. Aversão ou desejo de erradicar = ódio. “Nossa, aí você já está exagerando”, ouço alguém tentar refutar. Quantas vezes na história os bem intencionados produziram tanta (ou mais destruição) que os mau intencionados? É mais ou menos assim: um experimenta algo de muito bom, muito maravilhoso. Sente que aquela experiência é verdadeira, é uma experiência da/na verdade. E isso é lindo. Depois, como um viciado, fica se lembrando daquela experiência e querendo retomá-la a todo custo, repeti-la, sistematizá-la, criar métodos de acesso permanente e etc. Passa a acreditar tanto na lembrança da experiência (produzida por sua própria mente e não mais pela verdade do agora, não se esqueçam) que começa a pregá-la. Planta a semente em seus descendentes: “quando todos forem como nós, o mundo será melhor”. Seus descendentes entendem que essa afirmação é complexa e sutil, mas passam a seus descendentes e estes aos seus e etc. Quantas gerações são necessárias para que a lembrança, completamente afastada da memória da experiência original, se transforme apenas em preconceito funesto, realizando apenas ódio? O amor, o bem e a paz são para serem vividos e não discutidos, estudados e debatidos. Essas atividades só servem se nos ajudarem a lembrar, a cada vez, que precisamos torná-las novamente verdadeiras através de nossas vidas. Liberdade nada tem de glamoroso como fazem parecer os discursos sobre ela ao longo da história. A liberdade de uma nação é prisão. A liberdade de uma classe social é prisão. A liberdade de uma ideologia, por melhores que sejam suas intenções, é prisão. A nação, a classe social, a ideologia e sua carga biogenética são seus condicionamentos. As impressões do passado e seus desejos de futuro simplesmente não existem. É você quem os cria, novamente, toda vez que se deixa determinar por eles. Tornar-se humano é supera-los através da integração útil. Negá-los ou querer dominá-los é, paradoxalmente, zelar por sua manutenção. Não plante essa semente. Por favor. Por amor.    

Please reload

Recent Posts

April 19, 2019

September 29, 2018

January 3, 2018

Please reload

Archive
Please reload

© 2020 por Leonardo Machado & Pedro Henrique Faria. Obrigado Wix.com