Três velhos amigos

March 16, 2016

Certa vez, li um ensinamento do mestre Ajahn Chan que dizia que temos três amigos muito próximos, desde a mais tenra idade. São eles: a ganância, ilusão e ódio. Não precisamos que ninguém nos ensine; nada de apresentações formais: são amigos muito próximos.

 

Olhemos para a ganância, cobiça ou simplesmente desejo, se assim preferir. Basta olharmos para uma criança que, mesmo com toda sua inocência, deseja o tempo todo. É comum dizermos que é preciso “dar limites aos filhos”, etc. Sabemos que, sem alguma pressão, seremos indulgentes com nossos desejos o tempo todo. Portanto, “educamo-nos”. Mas não fazemos isso observando de perto e cautelosamente esses desejos; filtrando-os, classificando-os, e canalizando-os, se possível for. Fazemos isso negando, ao invés de assumirmos responsabilidades. Nesse processo, utilizamos a divisão entre “bem” e “mal”, que reflete apenas aquilo que nos é satisfatório e aquilo que não. Esse desejo é bom, então é “meu”. Esse desejo é reprovável, então não é “meu”. Esse desejo, “eu” quero sentir; aquele, “eu” não quero sentir. O ego se vê apartado dos desejos como se estivesse em condições de escolher entre eles sem interferências.

 

Imaginemos que os desejos, assim como todas outras formas de variações mentais, vêm e vão todo o tempo, como uma multidão em um centro urbano. Só podemos nos mover numa multidão de duas formas: olhando cada transeunte rapidamente, acenando-lhe e pedindo passagem, por favor, aqui e ali, com bastante paciência e foco; ou, negando importância às pessoas que passam, fingindo não vê-las, empurrando-as, jogando-as umas contra as outras para abrir passagem e etc. Sentimos raiva, medo, angústia, depressão, inveja e negamos, assim como muitas pessoas não enxergam miseráveis, pedintes e outras pessoas porque as consideram inferiores. Sentimos prazer, satisfação e saciedade, e nos agarramos, consideramos que estão “à nossa altura”. A partir de então, seguimos a multidão sem foco, correndo atrás da lembrança que temos do prazer, satisfação e saciedade. Os desejos não são observados, mas apenas seguidos.    

 

Para seguir esta trilha, recorremos ao outro amigo, a ilusão. O truque é simples: cedendo aos impulsos todo o tempo, achamos que somos diferentes deles. Acreditamos que escolhemos ceder, não é cômodo? Para conciliar a indulgência para com os prazeres em algum contexto de autojustificativa, inventamos um “nós mesmos”. Assim, “...eu estive nervoso naquele momento, mas aquilo não era eu; estava fora de mim”. Essa abstração chamada ego pode ser apontada com uma analogia: a mente é um bola de soprar, e seus impulsos são cores; quando nervosa, a bola está vermelha, quando calma, azul, quando concentrada, amarela; e assim por diante. Por sempre se ver com alguma dessas cores, a bola gosta da ideia de imaginar que ela seja uma bola “em geral”, isto é, uma bola sem cor. Se é sempre a bola que é ora vermelha, ora amarela, ora azul, deve existir a bola sem nenhuma cor, para “se juntar” com a cor. Que ela seja algo de diferente, de separado de suas cores. O velho hábito linguístico de separar o sujeito do predicado. Não existe nem a bola e nem o vermelho em separado, mas a bola vermelha, a bola azul, a bola amarela, a cada momento. A raiva não é uma entidade que caminha ao nosso lado; é um impulso que nos surge e que, se deixarmos, vai desaparecer. Assim também com a alegria, inveja, ternura, ansiedade etc. Surgem e passam. Duplicamos a realidade e com esse jogo de espelhos, mentimos para nós mesmos sobre a responsabilidade por nossos atos. Quando somos raiva, somos raiva e apenas raiva. O controle do ego é ilusão. Nunca poderemos deixar de sentir raiva. Podemos no máximo e no mais das vezes, observar a raiva quando ela ocorre, ao invés de reagir imediatamente. Encare a multidão como um político em campanha; acene, reconheça e diga “adeus, passar bem”.  Ou chegaremos ao próximo e amadurecido amigo.

 

À medida em que envelhecemos, conhecemos pessoas e passamos por experiências significativas, somos provocados a aceitar que o ego é uma ilusão. E quanto mais resistimos, mais colocamos a ilusão para trabalhar e deixar as barreiras mais firmes e consistentes. Com isso, aquele jogo de espelhos que transforma o que me apraz em “bom” e o que não me apraz “mal” é intensificado, fazendo com que sejamos tomados pelo desejo de erradicar o que nos causa desprazer, ou, agora que estamos completamente cegos, o “mal”. (Deixo a clara ressalva que não estou afirmando que não existe sentido em se falar em bem e mal em contextos de relações humanas; esta reflexão busca colaborar para dissolver a ilusão de que algo seja sempre “bom” ou “mau”.) O ponto aqui é que o desejo de erradicar se chama ódio. O desejo de erradicar, mesmo o de erradicar o que é aparentemente ruim, é o próprio princípio do mal. O desejo de que aquilo que me machuca deixe de existir emana de um ponto de vista que desconsidera completamente a interdependência do universo. Se existem a dor e o prazer, é porque o universo assim o faz. Pretender erradicar a dor é o mesmo que pretender compreender melhor o universo que “ele“ próprio. O próprio desejo de matar é ódio, o que nos prende na casa de espelhos, como num filme de terror: construímos a casa de espelhos para admirarmo-nos da nossa própria imagem; tentamos destruir os espelhos que nos deixam feios e guardar apenas os espelhos que nos deixam bonitos; como eles são o mesmo espelho (ego) e nos recusamos a aceitar isso, passamos boa parte da existência construindo e remendando o espelho, sem perceber que poderíamos sair da casa de espelhos a qualquer momento, porque não precisamos de um espelho.  

 

Portanto, aqueles maus desejos, para retornarmos ao ponto onde começamos, precisamos aceitá-los. Aceitar os maus pensamentos, os desejos vis de um ponto de vista meditativo. Contemplá-los, observá-los. Não para controlar, não para matar, não para analisar. Apenas para observar. Cumprimentá-los e deixa-los ir. Assim integramos as forças contraditórias que nos empurram pra lá e pra cá; alcançamos algum equilíbrio. E para fazer isso, precisaremos deixar três grandes amigos irem embora. 

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